Bruxaria Draconiana

Um lugar para falar de Bruxaria, Dragões, e Religiosidade.

As palavras sagradas e seu poder.

Tristia mæstum
Vultum verba decent; iratum, plena minarum;
Ludentem, lasciva; severum, seria dictu
1. – Horácio, Ars Poetica

Apesar da Bruxaria ser um ofício de ações e não intenções, é impossível debruçar-se sua prática e não examinar as ferramentas que empregamos, à semelhança de certo Atu2. Hoje vou me deter sobre uma das que mais amo e uso, seja em invocações, ritos, ou instruções: a palavra.

Na Bruxaria que praticamos, palavras tem poder – e isso não sou eu que digo, mas um dos personagens mais bruxos da ficção moderna3. Elas são muito mais do que simples símbolos de erudição, distintivos de conhecimento ou meras ferramentas; palavras são grávidas de mistérios e entre textos, são verdadeiras pegadas que mostram uma origem, um caminho, e um destino.

As palavras tecem um longo fio, à semelhança das Nornes: brotam do tear do trono de nosso espírito, sendo medidas por nossa mente, trançadas na matéria pela vibração do ar. Aqui, outras mãos empunham a tesoura da razão, o discurso e o pensamento moldados e moldando aqueles que os recebem – snip, snip – cada um cortando a mais ou a menos de acordo com suas necessidades.

Se isso não é magia, não sei o que é.

Através de palavras, o pensamento é exposto, nu como Godiva; completos estranhos são arrebatados a paragens nunca dantes vistas pela força da imaginação, e o ridículo açoita e fere os que se julgavam temporalmente intocáveis através da sátira. Um feitiço é muito mais do que uma ferramenta que transforma “A” em “B” através de palavras de poder (e quais não são?); um feitiço é a comunicação de uma Bruxa com o mundo, uma conversa com os poderes manifestos nos olhos invisíveis, um diálogo entre necessidade e poder.

E qual o uso “certo” da palavra, na magia? O uso mágicko da palavra não usa a gramática normativa ou adota a norma culta dos imortais; é um irromper que rasga a noite, é uma cadência, uma cantilena, uma canção que desperta espíritos e adormece inimigos; é fazer suas palavras serem carregadas pelo vento e subirem com as fumaças dos sacrifícios até se sentarem como gatinhos no colo dos Deuses.

E como tudo na Bruxaria, é algo que se aprende e se treina. Existem diversas técnicas para treinar o uso mágicko da palavra; vibração de nomes, os malabares herméticos do notariqon e gematria, o Warholismo da língua barbárica, a calistenia do voto de silêncio. Ao refinar o nosso ofício, as palavras não são faladas, mas falam – elas falam de antigas virtudes esquecidas, dos poderes das mulheres e da celebração de nossos mistérios, de conhecimentos secretos ocultos, de paisagens sagradas, de fadas, de sagrado, inspiração, magia, encantamento e revelação. Eles falam de uma parte de nós mesmos, como mulheres e homens, que anseia por trazer o significado de volta à vida mundana, que tem sede de uma verdadeira espiritualidade.

Qual o seu relacionamento com as palavras? As usa ou é usado(a) por elas? São companheiras ou escravas? Em invocações as balbucia como criança inepta, ou as abraça como amante?

Notas:

  1. As palavras tristes se tornam tristeza; as palavras iradas servem ao passional; as palavras leves à expressão lúdica; as palavras sérias servem ao sepulcral. (tradução livre) ↩︎
  2. Mais especificamente, este aqui. ↩︎
  3. “As palavras são, em minha não tão humilde opinião, nossa fonte mais inesgotável de magia, capaz tanto de infligir danos quanto de remediá-los” – Albus Dumbledore. ↩︎

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