Que Dragão é esse?
Quando pessoas que não praticam a Bruxaria Draconiana sonham/vêem/descobrem Dragões, essa é a verdadeira pergunta de um milhão de reais. Perguntam como se tivéssemos um Pókedex de Dragões, ou um Dragonbook.
O engraçado é que não me chamo Newt.
Se pararmos para pensar, é uma curiosidade até que bastante comum. É de nossa natureza ao tomar conhecimento de algo diferente, querer compreender e conhecer. O problema que isso é muito, muito diferente de querer colar uma etiqueta e jogar numa caixinha, seja dos quatro elementos, ou de características agrupadas por cores. E no entanto, é raro ver alguma abordagem do processo de conhecimento dentro da Bruxaria em si.
Conhecer não é catalogar ou atribuir um nome. Isso é apenas uma etapa desse processo, e se o processo para por aí, ele se torna raso e indeficaz. Conhecer vai muito além, e requer convívio, prática, e observação. Quem não ensina isso e recorre a uma “categorização pokémon” são os que querem vender soluções rápidas e de catálogo aos que os procuram.
Ver um Dragão se desvelar (isto é, quando realmente é um Dragão…) é uma experiência inesquecível. No entanto, no universo da Bruxaria raramente as coisas são o que aparentam ser; e para nós, que vivemos a Bruxaria Draconiana, a cor do alegado Dragão que se desvela, se tem chifres ou não, ou se tem asas é o que menos importa.
Diferentemente do pessoal dos catálogos, entendemos de maneira íntima a natureza dos Dragões e baseamos nossa crença em nossas experiências diretas, não naquilo que vende mais ou mais popular. Alimentar uma fantasia dracônica deflagrada por uma mente ou espírito ferido é um crime inafiançável, e isto este círculo não faz.
Infelizmente, somos uma minoria, e isso ficou bastante aparente durante a pandemia. O que antes era assunto de meia dúzia de panelinhas obscuras, foi colocado na vitrine, para quem quisesse ver. De auto-proclamado Bruxão iniciador querendo tirar dinheiro dos outros com pirâmide financeira até pseudo-derivações financeiras da doutrina de Usui sensei, parece que todos os escrotos saíram de debaixo de suas pedras, como se comandados pela música do Medíocre mor que se alojou na presidência. Junto com esse processo de necro-mercantilização da Bruxaria, veio uma hoste de homens e mulheres de capacidade duvidosa a falar de Dragões, se prestando a outorgar experiências em troca de um punhado de reais.
Felizmente, nem todos seguem essa trágica rotina. Dentro das nações de candomblé, uma grata surpresa se manifesta através de Sidnei Nogueira, Babalorixá e Professor que inspirou este texto ao lavar minha alma um tanto mais cedo ao mencionar uma questão muito similar, dentro de sua fé.
Assim como ele, concordo que qualquer prioridade religiosa e mágicka sempre deve servir à aldeia à nossa volta; que é impossível tegiversar sobre a natureza de Dragões e do culto à ancestralidade no meio de um genocídio cultural e sob o coturno do Fascismo da Falência mental, moral, e afetiva que se instaurou no Brasil.
Há de se ter prioridades.
Toda a nossa bruxaria neste momento deveria estar voltada pra nossa sobrevivência, e para o amparo dos atingidos por esta terrível peste que se abateu sobre o mundo. Alguns tem feito isso, doando alimentos à comunidades (como a União Wicca do Brasil), ou máscaras, ou seu próprio tempo ensinando protocolos e medidas de proteção. Fica aqui meu obrigado à estes que escolheram seguir sua fé.
Para alguns, o importante da Bruxaria, o seu foco central não parece ser busca por compreensão e entendimento, mas sim por encontrar vozes que se somam às suas, que confirmem sua importância, sua condição de messias injustiçado, seu poder mágicko, sua linhagem e outras tantas quimeras absolutamente insignificantes para qualquer outro. À estes, que se preocupem se seu Dragão possui a cor de burro quando foge ou o que seja. Que estes teçam grandes folhetins sobre “seus” Dragões serem do fogo ou do ar, sem se aperceber que isso é de uma cretinidade tão grande quanto discutir se o Sr. Bergoglio é Argentino, ou Pontífice, ou Jesuíta.
Ao ler o texto do professor, foi impossível não compartilhar de seu cansaço. Se a ele perguntam sobre a regência do orixá, aqui sobre “qual é o meu Dragão?”, “de que elemento ele é?”, “de qual Deus/Deusa sou filho/filha/filhx?”, etc.
De maneira infinitamente menos polida que o babalorixá, posso responder pelo menos esta última. A última é fácil, jovem.
Você é um filho da puta.
Sim, é isso mesmo. Se está procurando biscoito, procure os escoteiros ou pras forças armadas que te darão medalhinhas lá. Porque, no final das contas, é exatamente isso que você e os da sua laia querem: algo pra colocar no peito e se sentir diferente. E isso cansa, atrapalha, e desmotiva quem busca na bruxaria sua religiosidade e um jeito de se tornar uma pessoa melhor.
É, você mesmo. Sai daqui. Só sai daqui, e deixe quem quer trabalhar chegar mais.
Enfim.
Uma vez que esse recado fraternal e gratifótons tenha sido dado, posso levantar um ponto que achei por demais interessante no texto do professor Nogueira: o hábito das pessoas “viverem por osmose”. Em seu texto, comenta a incapacidade do brasileiro médio de diferenciar uma coisa da outra, e com pesar bato meu tambor do lado de cá em compasso com o dele e digo que por estas bandas da Bruxaria sofremos do mesmo mal.
É tão mais fácil sorrir e dizer que “todas as Deusas são uma só”, não é mesmo? Pra que estudar e conhecer a diversidade enlouquecedora da divindade, tocando o infinito num dedal? Quantas vezes não ouvi esta mesma lenga-lenga, adornada por um sorriso vago e olhos pensando na morte da bezerra?
Essa vacuidade, essa inércia religiosa que se preocupa muito mais em repetir autores do que experimentar pessoalmente a prática da Bruxaria, colabora com essa diluição de pensamento; a falta de vontade em buscar entender as características e a autodeterminação dos povos transforma o caldo da diversidade em um toddynho açucarado que a geração-condomínio da bruxaria toma enquanto reclama da vó.
Esse toddynho é um veneno muito pior do que a destruição dos templos e a conversão forçada das nações. Buscar a pertença a algo maior através de uma camiseta de time de futebol divino dada por alguém é abaixar a cabeça para a expressão máxima da fé enquanto produto, do clã ou círculo como terapia barata para seres humanos ocos e carcomidos.
Essa conduta nuca deve ser associada à Bruxaria Draconiana ou o culto à Tiamat. Afinal, como falar de pertença sem caminhar nos calçados dos outros e sua bela diversidade, sem julgar, apenas observando e compreendendo? Como professar a fé sem se importar com o mundo visível e invisível que se extende além de nossos entes próximos?
Com que moral ou autoridade se abre um círculo se você quando se recusam a usar um pedaço de pano que salvaria vidas, porque se sentem incomodados? Como comandar um espírito ou elemental se você, ser iluminado e “evoluído espiritualmente”, não confronta alguém que arrisca a vida alheia “para não se aborrecer”?
Não dá. Por favor, não associem os Dragões a este monte de merda que vocês fazem.

Advogado, tradutor, carioca, 48 anos e morador de São Paulo. Há quase vinte anos atrás, sacerdotes e sacerdotisas me levaram para um templo entre mundos e me trouxeram de volta à vida – desde então, entre o staccato dos trovões, o tilintar de taças e um coral de risos eu faço meu ofício e desempenho meu papel entre os filhos dos Deuses Antigos.